terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Autismo: o jovem com transtorno que desafiou diagnósticos e se formou em medicina

Sempre soube que teria de lutar mais que os outros para conquistar meus objetivos', diz Enã Rezende
No salão de eventos de um prédio de Cuiabá (MT), os balões dourados formam o primeiro nome de Enã Rezende, de 26 anos. No lugar, há itens como chinelos e camisas em homenagem ao rapaz, que colou grau na terça-feira (15). A família não poupou esforços para comemorar a formatura do jovem no curso de medicina.
É um dos períodos mais felizes para a mãe dele, a psicóloga Érica Rezende, 46.
"Tem passado um filme diante de mim sobre tudo o que vivemos", conta à BBC News Brasil.
Para ela, que há quase 20 anos ouviu de uma professora de Enã que o garoto não conseguiria ser alfabetizado, ver o filho concluir o ensino superior é uma emoção que não consegue descrever.
Na manhã de quinta (17), quando visitamos Enã e os familiares, eles se preparavam para um jantar que aconteceria no período da noite, em homenagem aos formandos em medicina. Foi o terceiro evento em comemoração à conclusão de curso da turma. Na noite anterior, houve uma cerimônia religiosa.
"Na colação de grau dele, fiquei em choque, sem expressar muita emoção, porque estava me lembrando de tudo o que vivemos desde que ele era pequeno. Mas ontem, no culto ecumênico, não aguentei e chorei bastante", revela Érica.
Enã é autista. Desde a mais tenra idade, enfrentou preconceito e sofreu bullying por conta de suas características. Em razão das ofensas que ouvia de colegas, ele afirma que costumava se sentir inferior. O jovem conta que a conclusão do curso de medicina é também uma forma de provar para si que é capaz.
"Eu dizia para mim: tenho que vencer na vida e mostrar que está todo mundo errado. Sempre soube que teria de lutar mais que os outros para conquistar meus objetivos", diz o rapaz, de fala mansa e poucos gestos.
O Transtorno do Espectro Autista (TEA), popularmente conhecido como autismo, é uma desordem complexa do desenvolvimento cerebral. Ele se caracteriza por dificuldades na socialização e comunicação, além de padrões de comportamentos considerados repetitivos, como ações semelhantes em curto espaço de tempo.
Segundo estudo feito por cientistas americanos, a estimativa é de que, aproximadamente, uma a cada 59 crianças têm alguma característica do TEA.

A infância

Quando Enã tinha pouco mais de um ano de vida, os pais começaram a perceber que o garoto possuía características diferentes das demais crianças de sua idade.
Quando entrou para a escola, Enã enfrentou preconceito e bullying por causa de sua condição
"Uma das primeiras coisas que percebemos foi a dificuldade na fala. Ele não articulava bem as palavras. Além disso, ele também tinha dificuldades de compreensão e não conseguia olhar nos olhos. Em contrapartida, tudo o que eu ensinava, ele aprendia na primeira vez", relembra Érica.
Aos dois anos, Enã foi diagnosticado com psicose infantil, relacionada a dificuldades no desenvolvimento da criança e hoje mais associada à esquizofrenia. Érica cursava psicologia e considerava que o diagnóstico não se enquadrava no caso do filho.
"Desde o início, sempre soube que era uma informação errônea. A psicose poderia ser muito próxima do autismo, mas não era o caso do meu filho. Sempre imaginei que ele tivesse autismo. O diagnóstico é difícil até hoje. Duas décadas atrás era mais complicado ainda", diz.
O garoto passou a receber acompanhamento psicológico e fonoaudiológico para ter melhor desenvolvimento.
Anos mais tarde, no início da vida escolar, Enã passou a sofrer bullying em razão de suas características.
"Mesmo com acompanhamento fonoaudiológico, eu tinha muita dificuldade de fala. As pessoas não me entendiam direito. Além disso, eu também era desengonçado", diz o jovem.
"As pessoas riam dele. Mas acho que ele não notava isso", completa Érica.
"Eu notava, sim, mas não comentava", diz o médico, em seguida.
Érica relata que as pessoas costumavam perguntar sobre o motivo das dificuldades de fala e de interação do filho.
"Eu achava psicose infantil um diagnóstico muito confuso. Então falava apenas que ele era um pouco diferente", conta a psicóloga.
Na época, Enã se questionava sobre o fato de as pessoas o acharem diferente.
"Eu explicava a situação para ele, de uma maneira mais simples e leve, para que ele pudesse entender", conta a mãe.
Aos sete anos, enquanto estava na fase de alfabetização, uma professora de Enã chamou a mãe dele para conversar. A mulher informou que o garoto tinha dificuldades extremas e não conseguiria ser alfabetizado.
"Então, eu mudei ele de escola. Além disso, uma tia dele, que é uma exímia educadora, passou a ensiná-lo e logo o meu filho foi alfabetizado", conta Érica.

O sonho de cursar medicina

Ainda na infância, Enã sofreu uma grande perda. Ele tinha sete anos quando o pai morreu em um acidente de carro.
A morte do pai em acidente do carro, quando Enã tinha sete anos, despertou interesse pela medicina
"Eu ficava me perguntando sobre o motivo de isso ter acontecido com ele. Foi muito triste", relembra.
Com a perda do marido, Érica e os dois filhos, o mais novo tinha seis meses, se mudaram de Jales (SP), onde viviam, para Rondonópolis (MT), cidade natal dela.
Desde a morte do pai, Enã costumava perguntar com frequência sobre o acidente do pai, que, durante a colisão, teve traumatismo cranioencefálico e não resistiu.
"Eu ficava questionando minha mãe sobre como tinha ficado a cabeça dele. Ela até comprou um esqueleto para me explicar. Não era uma curiosidade normal para uma criança, mas isso me interessava", comenta.
Foi justamente o interesse em saber como o pai havia ficado após o acidente que fez com que Enã se encantasse pela medicina.
"Costumo dizer que isso foi o embrião para que eu decidisse seguir na área da saúde", frisa.
A influência do acidente do pai foi tamanha que ele planeja se especializar em neurocirurgia.
"Espero que eu possa salvar as vidas de outros pais. A do meu pai não pôde ser salva, mas quero impedir que outras crianças fiquem sem pai", relata.
A ausência paterna, ele revela, foi uma das coisas que mais o marcaram ao longo da vida.
"Na adolescência, sempre perguntava aos meus amigos como era a experiência de ter um pai acompanhando o seu crescimento."
"Alguns médicos me disseram que não revelam que são autistas por medo do preconceito'
Com o objetivo de cursar medicina, Enã se mudou de Rondonópolis para a capital mato-grossense, quando estava no terceiro ano do ensino médio. Em Cuiabá, morou na casa de uma tia, depois foi morar sozinho e passou a ser mais independente. Ele aprendeu a dirigir e trafegava com frequência pelas rodovias de Mato Grosso para visitar a família no interior do Estado.

Sobre o autismo

Só quando estava com 19 anos é que Enã foi diagnosticado com autismo. Anos antes, a irmã caçula dele, filha do segundo casamento de Érica, havia sido diagnosticada com o transtorno em nível severo. A psicóloga levou o filho para uma consulta com a psiquiatra que havia atendido a caçula. A médica fez exames no jovem, que também foi diagnosticado com TEA.
Érica explica que somente o filho do meio, de 20 anos, não é autista.
"Não sei explicar o motivo de dois dos meus filhos serem assim. Já gastei muito com exames, para tentar descobrir, mas desisti, porque não há nada conclusivo para justificar isso", comenta.
Os estudos feitos sobre autismo apontam que a genética é um importante fator para o transtorno, mas o ambiente - como alterações na gestação ou no parto - também pode influenciar. As investigações sobre o tema ainda não são conclusivas.
O autismo é dividido em três níveis: leve (exige apoio), moderado (precisa de apoio substancial) e grave (exige apoio muito substancial). A classificação acontece conforme a gravidade dos sintomas em relação à comunicação e aos comportamentos.
O psiquiatra Caio Borba Casella explica que a diferença de grau do autismo é que vai definir o modo como será conduzida a vida do indivíduo.
A irmã caçula de Enã, filha do segundo casamento da mãe, também foi diagnosticada com autismo
"Os quadros mais graves costumam vir junto com deficiência intelectual, então essas pessoas vão precisar de muito apoio ao longo da vida e não vão ser totalmente independentes. Pessoas com quadros mais leves podem ter uma vida normal. Talvez precisem de ajuda ao longo do desenvolvimento, como a ajuda de um psicólogo no aprendizado ou na socialização, mas poderão viver de modo independente", diz.
Enã foi diagnosticado com Síndrome de Asperger, hoje considerada autismo em grau leve. Ele conta que ficou "feliz e triste" ao receber o diagnóstico.
"Fiquei feliz porque fui ler a respeito e realmente senti que me encaixava naquelas características. Isso me deixou aliviado, porque vi que o fato de eu ser assim tem um nome. Mas fiquei triste porque vi que é uma condição neurológica irreversível. Por algum tempo, tive preconceito contra mim mesmo. Mas essa fase já passou, hoje lido muito bem com isso", declara.
A irmã dele, com 12 anos, tem o transtorno no nível mais grave.
"Ela sempre precisa de ajuda. É um desafio grande pra gente, mas é maravilhoso. Minha irmã é muito querida e amorosa. O fato de ela ser autista não muda nada."

Ao comentar sobre a irmã, Enã enfatiza que o maior problema enfrentado por autistas é o preconceito. O jovem conta que, assim como ele, a caçula também sofre com a situação.
'O preconceito contra ela é ainda mais forte', diz Enã sobre a irmã de 12 anos, que sofre de autismo severo
"O preconceito contra ela é ainda mais forte. O que mexe comigo é quando as pessoas olham feio quando ela faz algum gesto ou dá um grito. Eu queria que parassem de olhar assim para ela. Fico muito chateado com essa situação."
Em razão do preconceito que viu os dois filhos sofrerem ao longo da vida, Érica criou, no fim de 2016, um projeto social no qual vai a escolas para dar palestras de conscientização sobre o autismo.
"Passei a perceber que talvez nem tudo fosse preconceito. Poderia ser apenas falta de informação", diz.
Todas as sextas-feiras, a psicóloga passa o dia indo a unidades de ensino e outros lugares, como hospitais, para falar sobre o tema.
"Acredito que mais de 15 mil pessoas já assistiram às minhas apresentações e passaram a entender melhor o assunto", afirma.

A universidade

No fim de 2012, Enã foi aprovado para medicina da Universidade de Cuiabá (Unic). Ele começou o curso no início do ano seguinte. O rapaz revela que ficou feliz com o começo do curso, porém temia que fosse encontrar grandes empecilhos.
"Uma das dificuldades do autista é na comunicação. O meu maior medo era lidar com os pacientes, porque tenho dificuldade de olhar nos olhos das pessoas, por conta do autismo. Eu venci esse temor quando comecei a fazer atendimentos", ressalta.
Coordenadora do curso de medicina da Unic, a endocrinologista Denise Dotta conta que somente ficou sabendo do transtorno de Enã no segundo ano em que o jovem estava na universidade.
"Quando a mãe dele nos apresentou os exames e conversou com a gente, passamos a dar uma atenção especial. Ele nunca teve problema de aprendizagem. A dificuldade dele era nos relacionamentos, na integração com as outras pessoas da turma."
Na universidade, Enã era tido como aluno exemplar - não reprovou em nenhuma disciplina
"O Enã é uma pessoa extremamente inteligente, mas por conta dessa dificuldade de interação, acabava ficando mais isolado. Então, passamos a tomar iniciativas, junto com professores e os próprios colegas, para que ele fosse colocado em grupos e tudo isso o ajudou na inserção social", conta à BBC News Brasil.
Na universidade, Enã era tido como aluno exemplar. O rapaz não reprovou em nenhuma disciplina. Ele costumava ajudar os colegas da sala em que estudava e chegou a ser monitor no curso, para auxiliar alunos de outras turmas.
O curso superior foi financiado por meio do Fundo de Financiamento Estudantil (FIES). O jovem deverá começar a pagar a partir do próximo ano.
Em meados de 2017, Enã fez uma publicação nas redes sociais na qual, pela primeira vez, falou abertamente sobre o fato de ser autista. Ele recebeu apoio de colegas e conhecidos. O caso repercutiu e ele foi chamado para participar de programas de televisão. Depois de relatar sua história, conta que leu comentários ofensivos na internet.
"Algumas pessoas me disseram que nunca se consultariam com um médico autista. Isso é puro preconceito", lamenta.
Ele ressalta que tais críticas demonstram desconhecimento sobre o tema.
"Se uma pessoa não quiser ser ajudada por um médico somente por ele ser autista, ela que sairá perdendo. O autista é uma pessoa extremamente focada, que vai lutar com unhas e dentes para ajudar. Eu tenho a mesma capacidade que qualquer médico", assevera.

O futuro

Um dos momentos mais aguardados por Enã era a colação de grau. Para ele, a cerimônia de finalização de curso parecia um sonho "maluco e maravilhoso".
A família de Enã customizou itens, como chinelos, para homenagear o jovem nos eventos de formatura
"Fiquei um pouco nervoso na hora, mas depois foi um alívio. É importante lembrar que tenho uma grande responsabilidade pela frente por ser médico, sendo autista ou não."
Ele ressalta que não é o primeiro autista a se formar no Brasil. Segundo o jovem, outros profissionais que possuem o mesmo transtorno entraram em contato com ele após descobrir a história de Enã nas redes sociais.
"Alguns médicos me disseram que não revelam que são autistas por medo do preconceito", diz.

No início de fevereiro, ele vai começar a trabalhar em uma unidade do Exército, em Rondonópolis.
A família não poupou esforços para comemorar a formatura do jovem no curso de medicina
"Todo médico recém-formado precisa se apresentar para o Exército. Quando foi a minha vez, disse que tinha interesse em prestar serviços como médico e eles me aceitaram", comenta.
Enã passará um ano trabalhando no local. Em 2020, ele planeja iniciar a especialização em neurologia.
Ao fim da entrevista, o médico diz que tem algo importante a dizer e pede para mandar um recado para outros autistas.
"Eu sei que para alguns, as percepções podem ser difíceis. Vocês vão ter dificuldades, mas nunca incapacidades. Se vocês têm um sonho, corram atrás dele. Não desistam", diz.

Fonte: NEWS BRASIL

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Entenda o que é Autismo e como identificar

O autismo, cientificamente conhecido como Transtorno do Espectro Autista, é uma síndrome caracterizada por problemas na comunicação, na socialização e no comportamento, geralmente, diagnosticada entre os 2 e 3 anos de idade.
Esta síndrome faz com a criança apresente algumas características específicas, como dificuldade na fala e em expressar ideias e sentimentos, mal-estar em meio aos outros e pouco contato visual, além de padrões repetitivos e movimentos estereotipados, como ficar muito tempo sentado balançando o corpo para frente e para trás.
Assim, são sintomas e características do autismo:
  • Dificuldade na interação social, como contato visual, expressão facial, gestos, dificuldade em fazer amigos, dificuldade em expressar emoções;
  • Prejuízo na comunicação, como dificuldade em iniciar ou manter uma conversa, uso repetitivo da linguagem;
  • Alterações comportamentais, como não saber brincar de faz de conta, padrões repetitivos de comportamentos, ter muitas "manias" e apresentar intenso interesse por algo específico, como a asa de um avião, por exemplo.
Estes sinais e sintomas variam de leves, que podem até passar despercebidos, mas também podem ser moderados a graves, que interferem muito no comportamento e na comunicação da criança. Para saber identificar os principais sintomas de um autista, confira sintomas do autismo. 

Entenda o que é Autismo e como identificar

Qual a causa do autismo

Qualquer criança pode desenvolver o autismo, e suas causas ainda são desconhecidas, apesar de cada vez mais pesquisas estarem sendo desenvolvidas para se descobrir. 
Alguns estudos já conseguem apontar para prováveis fatores genéticos, que podem ser hereditários, mas também é possível que fatores do ambiente, como a infecção por certos vírus, consumo de tipos de alimentos ou contato com substâncias intoxicantes, como o chumbo e mercúrio, por exemplo, possam ter grande efeito no desenvolvimento da doença. Algumas das principais possíveis causas incluem:
  • Deficiência e anormalidade cognitiva de causa genética e hereditária, pois observou-se que alguns autistas apresentam cérebros maiores e mais pesados e que a conexão nervosa entre suas células era deficiente;
  • Fatores ambientais, como o ambiente familiar, complicações durante a gravidez ou parto;
  • Alterações bioquímicas do organismo caracterizadas pelo excesso de serotonina no sangue;
  • Anormalidade cromossômica evidenciada pelo desaparecimento ou duplicação do cromossomo 16.
Além disso, existem estudos que apontam para algumas vacinas ou para a reposição em excesso de ácido fólico durante a gravidez, entretanto ainda não há conclusões definitivas sobre estas possibilidades, e mais pesquisas ainda precisam ser feitas para esclarecer esta questão. 

Como confirmar

O diagnóstico de autismo é feito pelo pediatra ou psiquiatra, através da observação da criança e da realização de alguns testes de diagnóstico, entre os 2 e 3 anos de idade.
Pode-se confirmar do autismo, quando a criança apresenta características das 3 áreas que são afetadas nesta síndrome: interação social, alteração comportamental e falhas na comunicação. Não é necessário apresentar uma extensa lista de sintomas para que o médico chegue ao diagnóstico, porque esta síndrome manifesta-se em diferentes graus e, por isso, a criança pode ser diagnosticada com autismo leve, por exemplo. Confira os sinais de autismo leve.
Assim, o autismo pode ser, por vezes, quase que imperceptível e pode confundir-se com timidez, falta de atenção ou excentricidade, como ocorre no caso da síndrome de Asperger e no autismo de alto funcionamento, por exemplo. Por isso, o diagnóstico de autismo não é simples, e em caso de suspeita é importante ir ao médico para que seja ele a avaliar o desenvolvimento e o comportamento da criança, podendo indicar o que ela tem e como tratar.

Entenda o que é Autismo e como identificar

Existem diferentes tipos de autistas?

Existem diferentes tipos de autistas, sendo que a forma de apresentação ou o "espectro autista" é variável. Alguns pacientes apresentam comprometimento grave e outros leve, como é o caso do autismo de alto funcionamento. Neste último caso o indivíduo pode ser muito inteligente e desenvolver sofisticados softwares ou ter uma facilidade extrema para alguma atividade específica, como a matemática como o americano que inspirou o filme “Rain Man”, por exemplo.
Alguns livros que falam sobre esta síndrome são: “O estranho caso do cachorro morto”, da Ed. Record, e “Um Antropólogo em marte”, da Companhia das Letras. Estas costumam ser boas leituras para pais de crianças diagnosticadas com autismo porque ajudam a entender a síndrome e como pode ajudar o seu filho.

Como tratar

O tratamento vai depender do tipo de autismo que a criança possui e do seu grau de comprometimento, mas pode ser feito com:
  • Uso de medicamentos prescritos pelo médico;
  • Sessões de fonoaudiologia para melhorar a fala e a comunicação;
  • Terapia comportamental para facilitar as atividades diárias;
  • Terapia de grupo para melhorar a socialização da criança.
Apesar do autismo não ter cura, o tratamento, quando é realizado corretamente, pode facilitar o cuidado com a criança, tornando a vida dos pais um pouco mais facilitada. Nos casos mais leves, a ingestão de medicamentos nem sempre é necessária e a criança pode levar uma vida bem próxima do normal, podendo estudar e trabalhar sem restrições. Confira mais detalhes e opções para o tratamento do autismo.


Fonte: +Tua Saúde

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

SEQUÊNCIA DIDÁTICA PARA TRABALHAR COM SURDOS EM SALA DE AULA

Objetivos:
· Estimular o prazer, o interesse e a satisfação do aluno pelo hábito de leitura;
· Introduzir termos novos, ampliando o vocabulário em português;
· Favorecer o entendimento das características textuais das histórias infantis;
· Compreender a organização temporal da narrativa;
· Reconhecer os tipos de moradia;
· Ler o texto em Libras;
· Apresentar diversos estilos de narrativa em português.

Habilidades:
· Lê histórias infantis com entusiasmo;
· Reconta a história seguindo a seqüência lógica;
· Reconhece as características textuais dos contos;
· Usa novas palavras dentro de um novo contexto;
· Reconhece o tipo de narrador na história;
· Caracteriza os personagens do texto;


Conteúdo
· Leitura
· Identificação dos personagens e elementos do conto;
· Seqüência do texto;
· Reconto;
· Tipos de casas.


Série: Sala de aula
Tempo estimado: 15 dias
Material necessário:
· Livros: Libras e português;
· Cartazes;
· Casa da história;
· Dedoches;
· Fichas com desenhos;
· Xerox;
· Video.

Situação Didática
1ª Etapa
Roda da conversa
· Perguntar aos alunos se eles conhecem os contos de fadas, usando como apoio os livros dos Contos de Fada para que o aluno surdo saiba do que se fala, ele mostra qual das histórias ele conhece.
· Perguntar como começa um conto de fada e como termina;
· Quais as figuras que são indicativas ao conto de fada;
· Listar os contos de fada conhecido.


2ª Etapa
· Apresentar aos alunos a história da mala, perguntar qual a história que poderia ter na mala;
· Tirar da Mala o livro dos Três porquinhos;
· Perguntar se eles conhecem essa história;
· Pedir que cada aluno conte a versão que conhece;
· Em seguida, começar a contar a história usando apenas o livro, no decorrer da história a Profª, vai tirando os personagens da mala, dando vida e movimento ao conto;
· Apresentar através de fichas com desenhos os personagens e elementos da história, e sua representação escrita em português.

3ª Etapa
· Assistir a história em vídeo; Podendo ser em LIBRAS ou Português
· Organizar a história em seqüência temporal usando cartaz com as cenas;
· O aluno surdo reconta a história em Libras;
· Dramatizações para fazer as marcas do narrador;


4ª Etapa
· Preguicinha;
· Cruzadinha;
· Passa tempo;
· Formação de palavras;
· Texto lacunado;
· História fatiada;
· Ordenação das letras;
· Relação figura/nome;
· Produção de texto;
· Organização da história com gravuras;


5ª Etapa
Fazer questionamentos para introduzir os conteúdos dos tipos de casa.
· Se você fosse um dos porquinhos, que material usaria para construir a sua casa? Por quê?
· Você preferia acabar rápido e fazer uma casa fraca ou demorar mais para fazer uma casa forte? Por quê?
· Se você fosse o porquinho mais velho, acolheria seus irmãos em sua casa? Por quê?
· Só existem três tipos de casa?
· Qual seu tipo de moradia?


6ª Etapa
· Listar os diferentes tipos de casa e os materiais para a construção de cada uma;
· Usar cartaz com figuras dos tipos de casa e materiais;
· Utilizando materiais concretos, para ensinar o sinal de cada um;
· Pedir para um aluno identificar quais dos materiais utilizados para construção de casas de madeira e/ ou alvenaria.

7ª Etapa
· Caixa de leitura com várias versões do conto;
·
 Trabalhar a leitura das diferentes versões para que o aluno possa criar a sua versão na construção do seu livro.


Fonte:Blog trabalhando com surdos.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Atividades de Alfabetização – Leitura e Escrita


Segue algumas atividades para alfabetizar. São atividades para escrever os nomes das palavras e formar palavras a partir dos símbolos.
Segue algumas atividades para alfabetizar. São atividades para escrever os nomes das palavras e formar palavras a partir dos símbolos.
Segue algumas atividades para alfabetizar. São atividades para escrever os nomes das palavras e formar palavras a partir dos símbolos.

Segue algumas atividades para alfabetizar. São atividades para escrever os nomes das palavras e formar palavras a partir dos símbolos.

Atendimento psicológico para surdos

Por Paulo Cesar S. Gonçalves*


Introdução
       
Uma das grandes dificuldades do surdo é lidar com suas emoções e sentimentos.  Não porque seja diferente dos ouvintes, que vivem os mesmos conflitos e angústias, mas pela inexistência de um sistema de atendimento psicológico que contemple suas necessidades e peculiaridades.
        Nos últimos dez anos temos observado um movimento crescente em direção à inclusão social dos surdos, com iniciativas do poder público e da sociedade em geral, mas a maioria delas se destinam à educação do surdo, ao ensino da Língua Brasileira de Sinais-Libras, formação de professores especializados, intérpretes, além de uma grande quantidade de trabalhos acadêmicos visando desvendar o mundo dos surdos, mas muito pouco tem-se avançado no tratamento psicológico das pessoas portadoras de surdez.
         Com base em minha experiência clínica de atendimento ao surdo, iniciada há dez anos, em Brasília, já é possível fazer uma avaliação do progresso e das dificuldades enfrentadas nessa área de atendimento. Raros são os profissionais de psicologia que se interessam de forma definitiva por esse novo desafio, possivelmente pela dificuldade do aprendizado da Libras, indispensável ao trabalho terapêutico com os surdos. Por outro lado, não basta aprender Libras e iniciar o atendimento. É fundamental uma constante convivência com a comunidade surda, para que se possa compreender sua cultura e identidade, além da necessária vocação para lidar com as diferenças.
       A terapia com surdos é uma tarefa penosa, que requer muita dedicação e paciência, pois além do surdo, o trabalho se estende à família, um dos principais focos dos conflitos da pessoa surda. Poucos se dão conta da dimensão do sofrimento psicológico e moral do surdo. A falta de comunicação, o isolamento, o preconceito, fazem do surdo um ser dependente do ouvinte, ainda que tenha conseguido avançar em sua educação e desenvolvimento cognitivo. Essa dependência reduz sua auto-estima, produzindo conflitos que muitas vezes são interpretados equivocadamente como comportamentos típicos do surdo, como: agressividade, intolerância, individualismo, incapacidade intelectual, quando na verdade essa visão resulta do desconhecimento do mundo dos surdos. Contudo, não se pode negar que a cada dia os surdos progridem em suas conquistas e afirmação como cidadãos.



Abordagens clínicas e terapêuticas

          Muitas vezes me perguntam qual a abordagem terapêutica que adoto no atendimento ao surdo. É uma curiosidade natural. Afinal os psicólogos seguem geralmente uma tendência teórica pela qual tem afinidade e preferência. Mas eu afirmo que se nos limitarmos a uma única abordagem terapêutica no caso dos surdos, vamos restringir nosso campo de ação.Há um universo muito amplo de variáveis e especificidades no tratamento psicológico do surdo.
É preciso considerar:
a)     Faixa etária
b)    Período de aquisição da surdez ( pré ou pós-lingual)
c)     Nível de capacidade auditiva ( leve, moderada, severa, profunda, uni ou bilateral)
d)    Outras sequelas ( motoras, neurológicas, surdocegueira)
e)     Ambiente familiar
f)      Nível de oralidade/ leitura labial e sinalização em língua de sinais
g)     Nível socioeconômico
h)     Preferências sexuais ( atualmente existem associações de surdos gays)
i)       Envolvimento com drogas e atividades ilícitas
         Essa gama de condições e peculiaridades exigem do terapeuta uma postura profissional eclética, além da possibilidade de ter que intervir com aconselhamento em conflitos familiares, judiciais e nas relações de trabalho.
          Não basta, portanto, dar consultas no consultório, e torcer para que o surdo resolva seus problemas. É fundamental que o terapeuta esteja aberto a uma visão holística do atendido, em suas dimensões física, mental e espiritual ( no sentido de espiritualidade e não de religiosidade).
          Não se descarta, portanto, o uso de técnicas e procedimentos da terapia comportamental, cognitiva, gestaltista, e mesmo psicanalítica, e de outras abordagens. Cada caso requer procedimentos próprios e compatíveis com a especificidade do cliente. Sem falar na  necessidade do trabalho interdisciplinar, com o fonoaudiólogo, o psicopedagogo, o psiquiatra e outros profissionais.
          Na condição de terapeuta de surdos, muitas vezes precisei participar de audiências na justiça, em processos criminais e  de direito de família, para justificar laudos, esclarecer condutas do cliente diante do juiz, bem como visitar empresas para dialogar com empregados e chefes ouvintes, com o objetivo de melhorar as relações de trabalho.

Técnicas e procedimentos terapêuticos
         
         Diante das peculiaridades do comportamento do surdo, desenvolvemos ao longo de nossa experiência clínica, alguns procedimentos básicos para diagnóstico e tratamento, tais como:
•  -Entrevista inicial (Anamnese), com a presença de um dos responsáveis (geralmente a mãe)              
•         -Grafismo ( testes projetivos, desenho, pintura )
•         -Mágicas e brincadeiras ( crianças e adolescentes)
•         -Acesso ao computador (softers e programas especiais, que permitem diversão e, ao mesmo tempo, observação de padrões comportamentais, coordenação motora, níveis de frustração/ agressividade, desenvolvimento cognitivo e outras habilidades/aptidões). O uso da internet, hoje dominado pela maioria dos surdos é muito útil para interagir com o surdo.
•         -Escuta. O surdo é “tagarela”, gosta de desabafar, repetindo no início as mesmas histórias. A intervenção do terapeuta ocorre no estágio de “fadiga” do discurso, quando então ele se torna receptivo.
• -Informação pedagógica. Conceitos e informações práticas, para o auto-conhecimento e compreensão do mundo, com vistas a melhor comunicação e interpretação dos conteúdos trazidos durante a terapia


Treinamento e competência do terapeuta

         O psicólogo que deseja trabalhar com surdos deve primeiramente entender que essa é uma área de grande demanda. No entanto a quase totalidade dos surdos nunca teve acesso a psicoterapia, devido ao alto custo, - e  somente uma minoria tem condições financeiras para o tratamento-, ou simplesmente porque o poder público não oferece esse tipo de atendimento e quando oferece, é precário e sem profissionais habilitados e capacitados para essa especialidade. Até mesmo porque não existem cursos de capacitação para terapeutas de surdos. Desse modo, é muito difícil encontrar profissionais em todo o país que se dediquem a essa prática.
        Outra exigência é que  o psicólogo precisa aprender Libras, o que pode hoje ser feito com facilidade, pois há oferta de cursos pelo menos nas principais capitais e cidades de maior porte. O aprendizado de Libras só se torna efetivo com a convivência com a comunidade surda, através de Associações e grupos de surdos.
        Enquanto o terapeuta não dominar a Libras, pode iniciar atendimentos com surdos oralizados, o que facilita a comunicação.  É importante que a família do surdo seja orientada, principalmente as mães, e incentivadas para que aprendam Libras para melhor comunicação com o filho. Algumas Associações promovem cursos de Libras para as mães e familiares.
         É fundamental que o terapeuta realize pesquisas sobre surdez, sobre a cultura e identidade surda, a partir do próprio trabalho que realiza e também associando-se a grupos de pesquisas que existem em Universidades e outras instituições que atendem surdos.
        O atendimento psicológico ao surdo constitui um grande desafio e também um mercado de trabalho em potencial para o psicólogo.
        Atualmente a maioria dos surdos, principalmente os mais jovens, tem acesso a internet e uso de celular, e o terapeuta precisa participar dessas redes virtuais para estabelecer vínculos com os surdos.
        Existe já um grande acervo de ferramentas para o trabalho do terapeuta, como livros e filmes sobre a vida dos surdos, educação, Libras, alguns produzidos pelo governo através do INES e outros por instituições privadas.
        A competência do terapeuta vai sendo construída com o tempo e pelo desejo de servir a essa causa tão importante, que é preparar o surdo para exercer seus direitos e deveres de cidadão e oferecer a possibilidade de atendimento psicológico a essa minoria tão sacrificada e discriminada desde a antiguidade.

Conclusão

         Fica aqui um desafio para os futuros psicólogos, que estão em formação, e profissionais já atuantes, no sentido de que lancem um olhar sobre o universo dos surdos, tão fascinante e intrigante, e ainda tão inexplorado.
         São tantas as perspectivas para pesquisa e estudos na área de aprendizagem, percepção, linguagem, desenvolvimento, enfim, um vasto campo de crescimento e aprimoramento profissional.
         Entendo que o psicólogo, além de profissional competindo em um mercado de trabalho, tem também uma função social, de melhorar a qualidade de vida das pessoas, de contribuir para uma sociedade mais justa e equalitária. E por que não dedicar um décimo, talvez, de seu tempo, para um trabalho voluntário, para essa parcela carente e sofrida da população, mas com imenso potencial de desenvolvimento. Afinal, desde que a Libras foi aprovada como língua oficial dos surdos, o Brasil é um povo com duas línguas, mas continuamos todos irmãos.

*Psicólogo clínico